Texto base: Isaías 36-37
“Agora,
ó Senhor, nosso Deus, livra-nos das mãos dele, para que todos os reinos da
terra saibam que só tu és o Senhor”. Isaías 37.20
Já dizia o velho ditado: “Se correr o bicho pega, se
ficar o bicho come”. Talvez este ditado faça sentido para o que estamos
vivenciando em nosso país com a pandemia do COVID-19, especialmente quando nos
é recomendado o isolamento social na forma horizontal (total), a famosa
“quarentena”, como um meio de evitar a propagação do vírus e isto venha trazer
o colapso no sistema de saúde. Por outro lado, existe uma corrente de
pensamento que apregoa que a “quarentena horizontal” afetará drasticamente a
economia e isto traria outros problemas graves como a fome, empresas falindo (desemprego)
e, possivelmente, um caos social. Estar no lugar de um de nossos governantes
neste tempo não seria uma tarefa fácil, pois seja lá qual decisão que seja
tomada afetaria consideravelmente a vida populacional. Não quero entrar no
mérito de qual destes dois caminhos é o melhor, porém a recomendação do
Ministério da Saúde é para que fiquemos em quarentena.
Diante disso, gostaria de apresentar uma
história bíblica em que o povo de Deus também teve que ficar em quarentena. Interessante
que essa história está presente em quatro partes na Bíblia e isto sugere o
nível de relevância deste relato histórico. Encontramos ela em Isaías 36-37, 2
Reis 18-19, 2 Crônicas 32 e, possivelmente, o Salmo 46. O que podemos aprender
com este testemunho bíblico? Veremos a seguir.
No
ano 701 a. C., o rei Ezequias, juntamente com toda a cidade de Jerusalém, foi
forçado a uma “quarentena”, devido o cerco do rei assírio Senaqueribe que vinha
com seu império impetuoso conquistando e destruindo vários povos no Antigo Oriente
Próximo. Este mesmo império já havia arruinado com Israel, no Reino do Norte.
Agora, devido ao rei Ezequias não se submeter a tirania dos assírios (2Rs
18.7), Senaqueribe com seus exércitos invade o Reino de Judá e conquista
diversas cidades (Is 36.1-2) até chegar nas redondezas de Jerusalém, capital do
governo judaíta. O comandante do exército assírio, Rabsaqué, com seus mais de
cento e oitenta e cinco mil soldados cercam a cidade de Jerusalém com a
estratégia militar de intimidar e enfraquecer a população que ficou confinada,
sem poder sair para trabalhar e cultivar seu alimento.
O
rei Ezequias estava diante de um grande problema. Cercado pelo inimigo ele não
poderia sair da cidade e seu exército não tinha condições de medir forças
contra os assírios. Ficar enclausurado por muito tempo ele também não
suportaria pela escassez de alimento. O nosso ditado popular serviria para
Ezequias: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ele estava diante do
imponderável, do imprevisível. A única solução estava na sua confiança em Deus.
Em
2 Reis 18.1-7, é apresentado um histórico do rei Ezequias. Podemos destacar que
ele era temente a Deus, cheio de fé, seguia os mandamentos e isto possibilitou
que fosse um homem bem-sucedido, diferente de muitos reis anteriores que haviam
cometido diversos delitos e se afastado do Senhor. Contudo, diante da crise com
os assírios podemos destacar uma primeira lição desta história: que ser fiel a
Deus não nos livra de passar por tribulação. Por mais temente a Deus que
Ezequias fosse não o impediu de passar por um grave problema. Outra questão
importante de Ezequias é a sua liderança política e o seu discernimento ao
prever um cerco desta proporção imposta pelos assírios. Ele desenvolveu uma
engenharia de desviar um rio, através de um túnel, para dentro de Jerusalém.
Ezequias
“mandou
escavar um túnel para conduzir para dentro da cidade as águas da fonte Gion,
que ficava fora dos muros da cidade. A superfície da fonte foi tapada. O túnel
passava por baixo das muralhas de Jerusalém, conduzindo a água para um grande
tanque, chamado de piscina de Ezequias (2 Reis 19.20)”.
Isto possibilitou a
cidade de Jerusalém resistir por muitos dias a quarentena imposta pelos
assírios, pois eles tinham água e certa quantidade de alimento para manter uma
certa “normalidade”. É provável que a referência ao “rio da cidade de Deus”
declarada no Salmo 46.4 seja em alusão a “piscina de Ezequias”.
Em
Isaías 36.4-22, o comandante Rabsaqué tenta intimidar o rei Ezequias e
obrigá-lo a se render diante de toda a situação apresentada. Ele, inclusive,
afronta o rei ao anunciar que não vale de nada Ezequias buscar ajuda no Egito
(36.6) e nem em confiar no Senhor (36.7). Ele também se dirige ao povo dizendo
para não confiar no rei, pois todos iriam morrer (36.12-20). Ezequias pediu
apenas para o povo ficar em silêncio e não retrucar a afronta (36.21). Nas
“entrelinhas” deste capítulo podemos perceber que o rei Ezequias incentivou o
povo a confiar no Senhor (36.14-15).
Diante
de toda crise instalada e perigo iminente, o rei Ezequias foi ao Templo buscar
a direção de Deus. Na sua alma podemos perceber uma angústia latente:
“Este
dia é dia de angústia, de castigo e de vergonha. Como se costuma dizer, chegou
a hora de a criança nascer, mas a mãe não tem forças para dar à luz” (v.3).
Ezequias se sentia
impotente diante da situação e a única solução estava em Deus. Se tem uma coisa
que deixa o ser humano desestabilizado é a sua incapacidade de lidar e superar
os problemas. Existem problemas que são possíveis de resolução, contudo existem
alguns que só o Senhor para nos ajudar. E na oração de Ezequias podemos
perceber que o seu limite chegou e agora era ora de confiar em Deus. E a
resposta veio através do profeta Isaías:
“Não
tenha medo por causa das palavras que você ouviu, com as quais os servos do rei
da Assíria blasfemam contra mim. Eis que porei nele um espírito, e ele, ao
ouvir certo rumor, voltará para sua terra; e lá eu farei que seja morto à
espada” (37.6-7).
A
palavra do Senhor vinda pelo profeta trouxe alívio ao coração do rei, pois toda
afronta apresentada pelos assírios foi uma tentativa de ridicularizar o Deus de
Judá. Na verdade, os assírios, com toda sua arrogância, mexeram com quem não
deviam mexer. Eles blasfemaram contra o Senhor e a sentença contra eles veio
por meio do profeta Isaías.
Para
piorar ainda mais a situação dos assírios, o rei Senaqueribe enviou uma carta a
Ezequias fazendo uma segunda ameaça dizendo para ele não confiar em Deus, pois
não iria salvá-lo desta situação.
“Digam
a Ezequias, rei de Judá: ‘Não deixe que o seu Deus, em quem você confia, o
engane, ao dizer: Jerusalém não será entregue nas mãos do rei da Assíria’”
(37.10).
Essa postura
autoconfiante do rei assírio se dá pelo lastro de destruição que seu império já
havia realizado ao dominar povos e destruir vários templos consagrados a
diversos deuses. Na visão dele, Javé, o Deus de Ezequias, era mais um desses deuses
que não tinha poder nenhum e nem impediria a destruição que ele projetava
contra Jerusalém.
Ao receber esta carta ameaçadora, Ezequias mais uma vez
vai ao Templo do Senhor e ali faz uma oração (37.14-20). Neste momento Ezequias
não demonstra mais aquela angústia e medo que permeava o seu coração. Ele já
havia recebido a palavra do Senhor pela boca do profeta Isaías e esta palavra
trouxe confiança ao seu coração. Além disso, ela trouxe uma outra perspectiva
teológica ao rei, pois agora entende que o Senhor é o único Deus e que dispõe
do controle de todas as coisas. Na própria oração ele reconhece que os Assírios
destruíram muitos povos, inclusive destruindo seus deuses, porém ele faz uma
ressalva: “porque não eram deuses, mas objetos de madeira e pedra, feitas por
mãos humanas, por isso, os destruíram” (37.19). Ele concluiu a oração dizendo:
“Agora, ó Senhor, nosso Deus, livra-nos das mãos dele, para que todos os reinos
da terra saibam que só tu és o Senhor” (37.20). Conforme declara Motyer, “eis
aqui um homem que conhece o seu caminho para o reino da fé. Por isso, ele
começa por entregar tudo a Deus (v.14) e, depois, volta-se para pedir (15-20)”.
Mesmo diante da “quarentena” imposta pelos assírios e
correndo todo o perigo, Ezequias demonstra toda sua fé no Senhor que poderia
dar a vitória a ele e seu povo. Depois que o rei orou a Deus, o profeta Isaías
mais uma vez confortou o coração de Ezequias e como resposta divina lançou uma profecia
final que sentenciou Senaqueribe e todo seu império. No final da profecia
Isaías disse:
“Ele
não entrará nesta cidade, nem lançará nela flecha alguma. Não virá diante dela
com escudo, nem construirá rampas de ataque contra ela. Pelo caminho por onde
vier, por esse voltará; mas nesta cidade não entrará, diz o Senhor. Porque eu
defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor do meu servo
Davi” (37.33-35).
O que podemos perceber é
que a fé e a oração foram cruciais para que Ezequias recebesse este consolo de
Deus. Cabe ressaltar, que são nos momentos mais difíceis que Deus espera de nós
a fé nele. E o testemunho de Ezequias revela um Deus que ouve e responde a
oração do crente.
Ainda em relação a profecia de Isaías, é importante
destacar o “sinal” do Senhor para o rei Ezequias. A “quarentena” assíria iria
trazer sérios prejuízos “econômicos” para o povo de Judá. Por isso, o “sinal” é
uma orientação sobre como se portar depois que a “quarentena” acabar, ou seja,
o processo de restauração do reino que se daria com o tempo: “neste ano, se
comerá o que nascer espontaneamente e, no segundo ano, o que daí proceder. Mas
no terceiro ano semeiem e colham, plantem vinhas e comam os seus frutos”
(37.30). A perspectiva era de três anos para que conseguissem recuperar a
“economia” e as atividades trabalhistas voltarem ao normal.
Logo depois de lançada a profecia, o texto diz que o
“Anjo do Senhor” matou uma quantidade de cento e oitenta e cinco mil soldados
assírios. O Senhor cumpriu a sua profecia derrotando aqueles que haviam
afrontado a ele e ao seu povo. Alguns historiadores afirmam que a forma que
Deus agiu para matar os assírios foi com a proliferação de alguma doença
contagiosa, talvez vinda de algum
animal (rato?). Independente da forma, o que se sabe é que Deus interviu diante
de um grave problema que colocava seu povo em risco. Para completar a profecia,
o rei Senaqueribe que havia fugido de volta para o seu país, foi assassinado
pelos seus próprios filhos e seu império começou a ruir de vez (37.38).
Conclusão: O
que aprendemos com Ezequias em sua quarentena?
Diante do clima de medo e insegurança que vivemos no
mundo devido a pandemia do COVID-19, a história do rei Ezequias serve de
testemunho para nortear nossas vidas para a superação deste grave problema.
Podemos apontar algumas lições da história bíblica.
1º)
Confiar em Deus. Diante de uma situação praticamente
impossível de vencer, Ezequias percebeu que o único recurso que tinha era
confiar em Deus e tal atitude o possibilitou a experimentar um grande
livramento vindo da parte do Senhor e que serviu de referência para outras
nações (Veja Sl 46.8-10). Ele orou e confiou. Por isso, oremos e confiemos que
o Senhor está cuidando de nossas vidas.
2º)
Palavras de ânimo. Em tempos de crise é natural as pessoas
ficarem com medo e até se desesperarem. O texto bíblico nos ensina a
importância de apregoarmos palavras de ânimo. 1º foi Ezequias que procurou
acalmar o povo, sugerindo confiar no Senhor (Is 36.14) e 2º foi o profeta
Isaías que por duas vezes levou a palavra do Senhor a Ezequias para confortar e
encorajar seu coração. Que sejamos pregadores de palavras de ânimo e coragem.
3º)
Saber a hora de ficar em silêncio. Já dizia o Pregador:
“tempo de ficar calado, tempo de falar...” (Ec 3.7b). Diante da afronta e das
palavras ameaçadoras dos assírios, Ezequias mandou o povo ficar em silêncio (Is
36.21). Neste tempo de profunda crise sanitária que a nossa sociedade enfrenta,
somos bombardeados quase que diariamente com a polarização política. Palavras
de todos os lados surgem com várias notícias falsas e afrontadoras. Não é tempo
de nos dividirmos, de brigar por política. Não aceite as provocações. Cuidado
com o que você fala ou compartilha nas redes sociais. Por isso, em certos
momentos devemos nos silenciar para evitarmos maiores tensões.
4º)
Prudência. Ezequias confiava em Deus, mas isso não o
levou a uma atitude radical de sair da cidade e enfrentar os assírios. Ele
poderia pensar: “Se Deus está do meu lado, então eu vou sair da minha casa e
encarar o inimigo”. Ele não fez isso. Pelo contrário, Ezequias buscou a
orientação de pessoas mais sábias, como o profeta Isaías. Também procurou
alternativas para minimizar os impactos daquela crise ao desviar as águas do
rio para a cidade. Na crise Deus nos dá a oportunidade de buscarmos
alternativas inteligentes para vencer os problemas.
5º)
Planejar a reconstrução. Os assírios destruíram várias
cidades em Judá e trouxe vários prejuízos no entorno da cidade de Jerusalém. A
quarentena imposta por Senaqueribe devastou muitas fontes de alimentação do
povo. Mas o próprio Deus, através do profeta Isaías orientou ao rei a como se
planejar para a reconstrução do reino de Judá após a quarentena (Is 37.30). Por
isso, sabemos que também enfrentaremos uma crise muito grande após a quarentena
causada pelo COVID-19, porém assim como Ezequias devemos ter a esperança e
planejamento para a reconstrução.
Que Deus nos dê a vitória
neste tempo de quarentena!
Referência
Bibliográfica
BÍBLIA
SAGRADA. Tradução Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade
Bíblica do Brasil, 2018.
BORTOLINI, José. Conhecer e rezar os Salmos: comentário
popular para os nossos dias. São Paulo: Paulus, 2006.
MOTYER, J. Alec. O comentário de Isaías. São Paulo:
Shedd Publicações, 2016.
PROVAN, Iain; LONG, V. Pilips e LONGMAN III, Tremper. Uma História Bíblica de Israel.
São Paulo: Vida Nova, 2016.