“A humanidade não deu certo” (Flávio Migliaccio).
Essa foi uma
frase tirada da “carta de despedida” do ator Flávio Migliaccio que se
suicidou na segunda-feira, dia 04, segundo informações da imprensa.
Essa frase ficou em minha mente e trouxe a seguinte questão: “será mesmo
que a humanidade não deu certo? E se não deu certo, por quê?”.
Realmente, diante de tanta maldade, injustiça, perversidade, avareza que
encontramos no mundo podemos afirmar, em certo sentido, que a
humanidade não deu certo. Na linguagem do apóstolo Paulo a humanidade
está cheia de “inveja, homicídio, discórdia, engano e malícia. São
difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes,
orgulhosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos,
desleais, sem afeição natural e sem misericórdia” (Rm 1.29-31).
Resumindo, o problema da humanidade se chama PECADO. “Pois TODOS pecaram
e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A humanidade ainda não deu
certo por causa do pecado e tudo começou lá no jardim do Éden e de lá
que também temos esperança.
Em Gênesis 1, temos o relato da
criação de Deus e tudo foi feito em harmonia com o projeto do Criador.
Tudo o que Deus fez foi de uma beleza esplêndida e com um brilhantismo
artístico, não foi à toa que terminada sua obra o Criador reconheceu a
perfeição de todo o trabalho: “Deus viu tudo o que havia feito, e eis
que era MUITO BOM” (Gn 1.31).
O que deu errado, então? O que deu
errado foi que a humanidade, representada por Adão e Eva, escolheu o
caminho errado (Gn 3). Tendo a possibilidade de permanecer na presença
do Criador, de desfrutar de sua proteção e da liberdade responsável
preferiu desobedecer ao mandamento de Deus, sendo influenciado pela
serpente (Satanás), quis ser independente de Deus e jogou tudo a perder.
E perdeu. Perdeu feio! Perdeu a imagem de Deus, a comunhão com o
Criador, a harmonia com as outras criaturas e com a criação como todo.
Não julgue Adão e Eva, pois, talvez, você faria a mesma coisa que eles
fizeram.
Mas, apesar de toda a maldição que todos nós, seres
humanos, ficamos sujeitos por causa do pecado original (Adão e Eva), no
mesmo texto de Gênesis 3, no verso 15 e 21 foi despertada uma ESPERANÇA.
No verso 15, fala de um descendente da mulher que pisará a cabeça da
serpente e no verso 21, fala de um animal inocente que foi sacrificado
por Deus para servir de roupa para cobrir a nudez e vergonha dos
primeiros humanos. Ou seja, no mesmo texto que conta a tragédia humana
podemos perceber um projeto salvífico de Deus para a humanidade. O verso
15 e 21 está apontando para Cristo, que nasceu de uma mulher e foi
morto inocentemente numa cruz, como um cordeiro no matadouro, com o
propósito de perdoar a humanidade caída e redimi-la, possibilitando a
comunhão de volta com o Criador e toda a criação. Como diz João Batista:
“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Paulo
afirma assim: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não
levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra
de reconciliação” (2 Co 5.19).
Mesmo diante de tantas atrocidades
que experimentamos neste mundo, eu diria que a humanidade ainda não deu
certo porque, em sua maioria, muitos estão longe de Deus. Não tem como a
humanidade dar certo sem Cristo. Deus nos fez para que vivêssemos em
comunhão com Ele e sem Ele a vida é inútil. Deus continua acreditando na
sua criação, mesmo em meio a tanto pecado. Como diz Paulo: “onde
abundou o pecado, superabundou a graça de Deus” (Rm 5.20). O que nos dá
esperança como humanidade é a graça de Deus. Não merecemos nada nesta
vida, mas o nosso Deus, de forma graciosa, por intermédio de seu Filho
Jesus Cristo, nos oferece suas bênçãos. Portanto, a solução para nós,
que somos esta humanidade caída, é Jesus Cristo, somente Nele a
humanidade dará certo.
Deus abençoe sua vida!
Pr. Daniel Neves Stephen
Este blog foi criado com o objetivo de compartilhar estudos bíblicos com o público em geral. É sabido que a Bíblia desperta paixões e interesses diversos, contudo o objetivo é refletir de maneira livre e responsável seguindo os padrões doutrinários tradicionais da fé cristã e wesleyana. Desejo que este blog seja uma ferramenta de aprendizagem para as pessoas, especialmente para aquelas que tem sede pelo conhecimento bíblico.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Eu sigo o exemplo de Jesus de Nazaré, e daí?
Texto: Mateus 9.35-38
“Ao
ver as multidões, Jesus se COMPADECEU delas, porque estavam aflitas e exaustas
como ovelhas que não têm pastor” (v.36).
Vivemos numa sociedade cada vez mais doente em suas
relações com o próximo e isso é devido a vários fatores, mas destaco o egoísmo,
a falta de empatia, a insensibilidade com o sofrimento alheio e etc.. Isto tudo
reflete um termo de um filósofo (Z. Bauman) que está popularizado que é a ideia
de sociedade líquida, ou seja, uma sociedade que não consegue manter a forma e
se solidificar, principalmente, nas relações interpessoais.
Diante
disso, é relevante pegar o exemplo de Jesus, pois sempre ensinou sobre a importância
de conviver com as pessoas e de ajudá-las em suas dores. Em Mateus 9.35-38
percebe-se no texto um dos sentimentos mais belos de Jesus, e que uma pessoa
pode demonstrar, que é a compaixão (misericórdia) por seres humanos. Jesus era
movido por este nobre sentimento, especialmente porque as pessoas que se
aproximavam dele era um povo sofrido, que estava debaixo de julgo opressor
maligno (tanto de viés espiritual quanto material).
Esta pequena perícope introduz o momento de instrução e
envio dos discípulos para anunciarem o reino de Deus a todo Israel (Mt 10.1-42),
e eles deveriam dar preferência as “ovelhas perdidas da Casa de Israel” (10.6).
Jesus serve de referência para seus discípulos, pois assim como ele agia com
compaixão pelas pessoas, também seus discípulos, ao serem enviados para a
missão, deveriam ser movidos pelo mesmo sentimento.
Era a compaixão de Jesus pelas pessoas que o levava a
percorrer as cidades e aldeias, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho
do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades” (9.35). O Evangelho de
Mateus testemunha o momento em que Jesus expressou a compaixão pelas pessoas:
“Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas...” (9.36).
O que aprendemos com
Jesus neste texto?
A
1ª lição: Jesus se compadece das pessoas aflitas (das ovelhas sem pastor)
O
que significa compaixão neste texto? A palavra no grego que é traduzida por
compaixão é “splanchna” que indica “à sede das emoções, as ‘entranhas’, ou
àquilo que hoje seria chamado de ‘coração’” (COENEN e BROWN, 2000, p.1294). Daí
essa palavra também ser traduzida por misericórdia (coração na miséria?).
Contudo, “splanchna” é o equivalente ao hebraico “rehem” que tanto é traduzido
por compaixão quanto por útero e tem o objetivo de mostrar um profundo amor. É
um sentimento de uma pessoa bem situada na vida (Deus ou qualquer ser humano)
para outra que se encontra na posição de carência (humanidade).
A palavra hebraica “rehem” era usada principalmente
quando alguém queria explicar o amor de Deus, algo praticamente inexplicável.
Assim Isaías usou este termo: “Por breve momento te deixei, mas com grandes
compaixões torno a acolher-te” (Is 54.7). Esse mesmo termo também é usado para
descrever o amor de uma mãe pelo filho e filha que ela amamenta (Is 49.15). “É
muito significativo constatar que o hebraico bíblico usa a mesma palavra para
designar o órgão feminino, útero, onde se gera a vida com profundo amor”
(SIQUEIRA, 2005, p. 86). A compaixão que Jesus demonstrou em seu ministério
está relacionada a mesma palavra hebraica e esta ação trouxe vida aqueles que
respondiam com fé.
No texto de Mateus, percebemos que Jesus se compadeceu de
uma multidão aflita e exausta. Pessoas que estavam oprimidas, atormentadas,
desamparadas. Jesus compara esta multidão as ovelhas sem pastor. Essas ovelhas
foram abandonadas pelos seus “pastores”. Ovelhas sem pastores estão fadadas a
destruição. A figura do pastor era muito presente em Israel. “Ovelhas não eram
protegidas por cercas e não se defendiam. Em vez disto, eram totalmente dependentes
de pastores para proteção, pastagem, saciar a sede, abrigo e cuidar dos
ferimentos. De fato, ovelhas não sobreviveriam por muito tempo sem um pastor”
(WALTKE, 2015, p.460).
Jesus se compadeceu das pessoas porque elas estavam
destinadas a destruição. Jesus era a única esperança delas. Jesus continua
olhando para nós e se compadecendo de nossas aflições.
A
2ª lição: Jesus ensina seus discípulos a se compadecerem das pessoas
Ao incentivar os seus discípulos a seguir o seu exemplo,
Jesus muda a metáfora das ovelhas perdidas para a colheita. A colheita indica o
fim da era (13.49). Jesus aponta que a safra será grande e muitas pessoas
estarão prontas para serem “colhidas” no reino. As aflições que elas passam era
um indicador de que estariam sensíveis a aceitar o convite para o Reino de
Deus. Para isso acontecer Jesus conta com seus discípulos para que eles,
movidos pelo sentimento de compaixão, possam exercer a missão do Reino. A
principal motivação da missão é a compaixão pelas pessoas.
Talvez a falta de trabalhadores para a colheita seja
porque está faltando a compaixão no coração daqueles que se dizem seguidores de
Jesus. Mateus destaca um alerta de Cristo sobre os últimos dias: “Por se
multiplicar a maldade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12). A maldade
ou o pecado destrói os alicerces da compaixão. O amor que é derramado, pelo
Espírito (Rm 5.5), na vida dos discípulos não pode se esfriar (Ap 2.4-5).
Por
isso, Jesus conclama seus discípulos a orarem a Deus para que não falte os
trabalhadores para esta grande colheita. “Por isso, peçam ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara” (v.38). Que não falte trabalhadores
nesta seara/colheita.
Conclusão:
Portanto, diante de um cenário caótico que percebemos na
sociedade, onde as pessoas cada vez mais estão insensíveis a dor e o sofrimento
do próximo, temos em Jesus um modelo a ser seguido. Precisamos aprender com
nosso Mestre e Senhor a se compadecer das pessoas aflitas porque perderam seus
empregos, perderam entes queridos, e estão preocupadas com o seu futuro e de
sua família. A compaixão deve nos levar ao encontro dessas pessoas, se colocar
em seus lugares, sofrer as suas dores e ser canal de ajuda e esperança. A seara
é grande, a colheita está pronta e devemos nos mover pelo sentimento de
compaixão para que como discípulos de Jesus levemos o amor de Deus para as
pessoas.
Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Tradução
de João Ferreira de Almeida, 3ª ed. (Nova Almeida Atualizada). Barueri:
Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
CARSON, D. A.. O
comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
COENEN, Lothar e BROWN,
Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida
Nova, 2000.
SIQUEIRA, Tércio. Tirando
o pó das palavras. História e teologia de palavras e expressões bíblicas. São
Paulo: Cedro, 2005.
WALTKE, Bruce e HOUSTON, James. Os
Salmos como Adoração Cristã: um comentário histórico. São Paulo: Shedd
Pulicações, 2015.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Mensageiro de Boas Novas e não de Fake News
Leia Isaías 52.7-12
“Quão
formosos são sobre os montes os pés do que anuncia boas-novas, que faz ouvir a
paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: “O seu
Deus reina”! (Isaías 52.7)
Todo
discípulo de Jesus é chamado a ser um mensageiro de boas-novas. Vivemos um
tempo onde a propagação de mensagens caóticas, mentirosas e caluniosas, as
chamadas “fake news” estão se multiplicando com o advento das redes sociais. E
compartilhar tais mensagens é ser conivente com a propagação de uma mentira.
Infelizmente, muitos discípulos de Jesus têm incorrido nestes erros, talvez
involuntariamente ou não. E isto é grave ao imaginar que fomos chamados pelo Senhor
a proclamar as boas-novas, especialmente neste tempo de profunda crise
humanitária que vivenciamos.
Por
isso, é importante analisarmos o texto de Isaías 52.7. A imagem do mensageiro,
que Isaías aponta em sua profecia, é bem sugestiva em relação ao momento em que
o povo de Deus enfrentava uma de suas maiores crises, o exílio babilônico. Tal
pregação profética faz parte de um conjunto de profecias isaiânicas, que vai do
cap. 40 ao 55, surgidas neste período de crise com o propósito de trazer
esperança ao povo. Este conjunto de textos proféticos também é conhecido como o
“livro da consolação” (40.27-31; 41.8-16; 43.1-7; 44.1-2 etc.) e a consolação
consiste na libertação do jugo opressor babilônico (40-48) e o regresso à terra
prometida (49-55).
Pois
bem, o cap. 52.7-12 retrata a volta do Senhor para casa, o Sião e esta volta
significa a condução do povo liberto da opressão de volta à Terra Prometida. O
cenário apontado na profecia é de grande expectativa, pois os “atalaias” (v.8),
que representa o povo aflito e machucado pelo exílio, estão à espreita
aguardando a chegada do mensageiro e sua notícia.
O
profeta destaca os “pés formosos” do mensageiro (v.7). O mensageiro tem por
característica a rapidez dos seus pés, pois tem a responsabilidade de entregar
a notícia o mais rápido que pode. E diante da qualidade da mensagem que ele
carrega não tem como deixar de expressar que realmente os seus pés são
formosos. Na verdade, todos os pés daqueles que anunciam a mensagem de Deus são
formosos!
E
Isaías descreve o mensageiro como o portador das boas-novas e elas retratam a
salvação divina. A mensagem é tríplice: “paz”, “coisas boas” e “salvação – Deus
reina”. 1) a paz indica o restabelecimento de todas as coisas, inclusive das
relações, especialmente de Deus para com seu povo. O termo “paz” (shalom) significa muito mais do
que mera ausência de guerra. Ela denota inteireza, integridade, harmonia e
realização. “Shalom é o resultado da atividade divina na aliança (berit) e
também o resultado da retidão (Is 32.17) (...) na maioria dos casos shalom
descreve o estado de plenitude e realização, que é resultado da presença de
Deus” (HARRIS (org.), 1998, p. 1573). 2) As “coisas boas” representam a
harmonia e a bênção da criação e lega uma condição na qual os propósitos da
criação são concretizados (bem, tob; cf. Gn1.4,10 etc.). 3) A salvação remonta
a libertação da escravidão, mas particularmente da escravidão resultante do
pecado. Todas estas características da mensagem de salvação do mensageiro
apontam para o reinado de Deus, ou seja, onde o Senhor reina há paz, o bem e a
salvação.
É
interessante notar que todo o conceito de boas-novas impressa na profecia de
Isaías passou a ser um marco referencial para a fé bíblica. Inclusive ela se
harmoniza com o pensamento cristão a partir da palavra “evangelho”
(euangelion). Jesus instruiu seus discípulos a saírem pelas ruas anunciando as
boas-novas (Mt 10.1-7) e Paulo, em Romanos 10.15, aponta para a importância de
pregar as boas-novas citando a profecia de Isaías 52.7. Portanto, os cristãos
primitivos em harmonia com Isaías entenderam que a proclamação das boas-novas do
reinado de Deus compreende uma mensagem de paz, bem e salvação.
Portanto,
neste tempo de crise que estamos passando existem milhares de pessoas que estão
aflitas e como a figura de linguagem de Isaías elas são como os atalaias que
vigiam os muros das cidades esperando a chegada do mensageiro que possa trazer
as boas-novas. Nós, discípulos de Jesus, que possamos ser esses mensageiros que
exerçam seu chamado de proclamar as boas-novas de paz, bem e salvação.
Com amor,
Pr. Daniel Neves Stephen
Referência Bibliográfica
HARRIS, Laird (Org.).
Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida
Nova, 1998.
MOTYER, Alec. O
comentário de Isaías. São Paulo: Shedd publicações, 2016.
OSWALT, John. Isaías:
Volume 2 – capítulos 40-66. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
A vitória na quarentena
Texto base: Isaías 36-37
“Agora,
ó Senhor, nosso Deus, livra-nos das mãos dele, para que todos os reinos da
terra saibam que só tu és o Senhor”. Isaías 37.20
Já dizia o velho ditado: “Se correr o bicho pega, se
ficar o bicho come”. Talvez este ditado faça sentido para o que estamos
vivenciando em nosso país com a pandemia do COVID-19, especialmente quando nos
é recomendado o isolamento social na forma horizontal (total), a famosa
“quarentena”, como um meio de evitar a propagação do vírus e isto venha trazer
o colapso no sistema de saúde. Por outro lado, existe uma corrente de
pensamento que apregoa que a “quarentena horizontal” afetará drasticamente a
economia e isto traria outros problemas graves como a fome, empresas falindo (desemprego)
e, possivelmente, um caos social. Estar no lugar de um de nossos governantes
neste tempo não seria uma tarefa fácil, pois seja lá qual decisão que seja
tomada afetaria consideravelmente a vida populacional. Não quero entrar no
mérito de qual destes dois caminhos é o melhor, porém a recomendação do
Ministério da Saúde é para que fiquemos em quarentena.
Diante disso, gostaria de apresentar uma
história bíblica em que o povo de Deus também teve que ficar em quarentena. Interessante
que essa história está presente em quatro partes na Bíblia e isto sugere o
nível de relevância deste relato histórico. Encontramos ela em Isaías 36-37, 2
Reis 18-19, 2 Crônicas 32 e, possivelmente, o Salmo 46. O que podemos aprender
com este testemunho bíblico? Veremos a seguir.
No
ano 701 a. C., o rei Ezequias, juntamente com toda a cidade de Jerusalém, foi
forçado a uma “quarentena”, devido o cerco do rei assírio Senaqueribe que vinha
com seu império impetuoso conquistando e destruindo vários povos no Antigo Oriente
Próximo. Este mesmo império já havia arruinado com Israel, no Reino do Norte.
Agora, devido ao rei Ezequias não se submeter a tirania dos assírios (2Rs
18.7), Senaqueribe com seus exércitos invade o Reino de Judá e conquista
diversas cidades (Is 36.1-2) até chegar nas redondezas de Jerusalém, capital do
governo judaíta. O comandante do exército assírio, Rabsaqué, com seus mais de
cento e oitenta e cinco mil soldados cercam a cidade de Jerusalém com a
estratégia militar de intimidar e enfraquecer a população que ficou confinada,
sem poder sair para trabalhar e cultivar seu alimento.
O
rei Ezequias estava diante de um grande problema. Cercado pelo inimigo ele não
poderia sair da cidade e seu exército não tinha condições de medir forças
contra os assírios. Ficar enclausurado por muito tempo ele também não
suportaria pela escassez de alimento. O nosso ditado popular serviria para
Ezequias: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ele estava diante do
imponderável, do imprevisível. A única solução estava na sua confiança em Deus.
Em
2 Reis 18.1-7, é apresentado um histórico do rei Ezequias. Podemos destacar que
ele era temente a Deus, cheio de fé, seguia os mandamentos e isto possibilitou
que fosse um homem bem-sucedido, diferente de muitos reis anteriores que haviam
cometido diversos delitos e se afastado do Senhor. Contudo, diante da crise com
os assírios podemos destacar uma primeira lição desta história: que ser fiel a
Deus não nos livra de passar por tribulação. Por mais temente a Deus que
Ezequias fosse não o impediu de passar por um grave problema. Outra questão
importante de Ezequias é a sua liderança política e o seu discernimento ao
prever um cerco desta proporção imposta pelos assírios. Ele desenvolveu uma
engenharia de desviar um rio, através de um túnel, para dentro de Jerusalém.
Ezequias
“mandou
escavar um túnel para conduzir para dentro da cidade as águas da fonte Gion,
que ficava fora dos muros da cidade. A superfície da fonte foi tapada. O túnel
passava por baixo das muralhas de Jerusalém, conduzindo a água para um grande
tanque, chamado de piscina de Ezequias (2 Reis 19.20)”.[1]
Isto possibilitou a
cidade de Jerusalém resistir por muitos dias a quarentena imposta pelos
assírios, pois eles tinham água e certa quantidade de alimento para manter uma
certa “normalidade”. É provável que a referência ao “rio da cidade de Deus”
declarada no Salmo 46.4 seja em alusão a “piscina de Ezequias”.
Em
Isaías 36.4-22, o comandante Rabsaqué tenta intimidar o rei Ezequias e
obrigá-lo a se render diante de toda a situação apresentada. Ele, inclusive,
afronta o rei ao anunciar que não vale de nada Ezequias buscar ajuda no Egito
(36.6) e nem em confiar no Senhor (36.7). Ele também se dirige ao povo dizendo
para não confiar no rei, pois todos iriam morrer (36.12-20). Ezequias pediu
apenas para o povo ficar em silêncio e não retrucar a afronta (36.21). Nas
“entrelinhas” deste capítulo podemos perceber que o rei Ezequias incentivou o
povo a confiar no Senhor (36.14-15).
Diante
de toda crise instalada e perigo iminente, o rei Ezequias foi ao Templo buscar
a direção de Deus. Na sua alma podemos perceber uma angústia latente:
“Este
dia é dia de angústia, de castigo e de vergonha. Como se costuma dizer, chegou
a hora de a criança nascer, mas a mãe não tem forças para dar à luz” (v.3).
Ezequias se sentia
impotente diante da situação e a única solução estava em Deus. Se tem uma coisa
que deixa o ser humano desestabilizado é a sua incapacidade de lidar e superar
os problemas. Existem problemas que são possíveis de resolução, contudo existem
alguns que só o Senhor para nos ajudar. E na oração de Ezequias podemos
perceber que o seu limite chegou e agora era ora de confiar em Deus. E a
resposta veio através do profeta Isaías:
“Não
tenha medo por causa das palavras que você ouviu, com as quais os servos do rei
da Assíria blasfemam contra mim. Eis que porei nele um espírito, e ele, ao
ouvir certo rumor, voltará para sua terra; e lá eu farei que seja morto à
espada” (37.6-7).
A
palavra do Senhor vinda pelo profeta trouxe alívio ao coração do rei, pois toda
afronta apresentada pelos assírios foi uma tentativa de ridicularizar o Deus de
Judá. Na verdade, os assírios, com toda sua arrogância, mexeram com quem não
deviam mexer. Eles blasfemaram contra o Senhor e a sentença contra eles veio
por meio do profeta Isaías.
Para
piorar ainda mais a situação dos assírios, o rei Senaqueribe enviou uma carta a
Ezequias fazendo uma segunda ameaça dizendo para ele não confiar em Deus, pois
não iria salvá-lo desta situação.
“Digam
a Ezequias, rei de Judá: ‘Não deixe que o seu Deus, em quem você confia, o
engane, ao dizer: Jerusalém não será entregue nas mãos do rei da Assíria’”
(37.10).
Essa postura
autoconfiante do rei assírio se dá pelo lastro de destruição que seu império já
havia realizado ao dominar povos e destruir vários templos consagrados a
diversos deuses. Na visão dele, Javé, o Deus de Ezequias, era mais um desses deuses
que não tinha poder nenhum e nem impediria a destruição que ele projetava
contra Jerusalém.
Ao receber esta carta ameaçadora, Ezequias mais uma vez
vai ao Templo do Senhor e ali faz uma oração (37.14-20). Neste momento Ezequias
não demonstra mais aquela angústia e medo que permeava o seu coração. Ele já
havia recebido a palavra do Senhor pela boca do profeta Isaías e esta palavra
trouxe confiança ao seu coração. Além disso, ela trouxe uma outra perspectiva
teológica ao rei, pois agora entende que o Senhor é o único Deus e que dispõe
do controle de todas as coisas. Na própria oração ele reconhece que os Assírios
destruíram muitos povos, inclusive destruindo seus deuses, porém ele faz uma
ressalva: “porque não eram deuses, mas objetos de madeira e pedra, feitas por
mãos humanas, por isso, os destruíram” (37.19). Ele concluiu a oração dizendo:
“Agora, ó Senhor, nosso Deus, livra-nos das mãos dele, para que todos os reinos
da terra saibam que só tu és o Senhor” (37.20). Conforme declara Motyer, “eis
aqui um homem que conhece o seu caminho para o reino da fé. Por isso, ele
começa por entregar tudo a Deus (v.14) e, depois, volta-se para pedir (15-20)”[2].
Mesmo diante da “quarentena” imposta pelos assírios e
correndo todo o perigo, Ezequias demonstra toda sua fé no Senhor que poderia
dar a vitória a ele e seu povo. Depois que o rei orou a Deus, o profeta Isaías
mais uma vez confortou o coração de Ezequias e como resposta divina lançou uma profecia
final que sentenciou Senaqueribe e todo seu império. No final da profecia
Isaías disse:
“Ele
não entrará nesta cidade, nem lançará nela flecha alguma. Não virá diante dela
com escudo, nem construirá rampas de ataque contra ela. Pelo caminho por onde
vier, por esse voltará; mas nesta cidade não entrará, diz o Senhor. Porque eu
defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor do meu servo
Davi” (37.33-35).
O que podemos perceber é
que a fé e a oração foram cruciais para que Ezequias recebesse este consolo de
Deus. Cabe ressaltar, que são nos momentos mais difíceis que Deus espera de nós
a fé nele. E o testemunho de Ezequias revela um Deus que ouve e responde a
oração do crente.
Ainda em relação a profecia de Isaías, é importante
destacar o “sinal” do Senhor para o rei Ezequias. A “quarentena” assíria iria
trazer sérios prejuízos “econômicos” para o povo de Judá. Por isso, o “sinal” é
uma orientação sobre como se portar depois que a “quarentena” acabar, ou seja,
o processo de restauração do reino que se daria com o tempo: “neste ano, se
comerá o que nascer espontaneamente e, no segundo ano, o que daí proceder. Mas
no terceiro ano semeiem e colham, plantem vinhas e comam os seus frutos”
(37.30). A perspectiva era de três anos para que conseguissem recuperar a
“economia” e as atividades trabalhistas voltarem ao normal.
Logo depois de lançada a profecia, o texto diz que o
“Anjo do Senhor” matou uma quantidade de cento e oitenta e cinco mil soldados
assírios. O Senhor cumpriu a sua profecia derrotando aqueles que haviam
afrontado a ele e ao seu povo. Alguns historiadores afirmam que a forma que
Deus agiu para matar os assírios foi com a proliferação de alguma doença
contagiosa[3], talvez vinda de algum
animal (rato?). Independente da forma, o que se sabe é que Deus interviu diante
de um grave problema que colocava seu povo em risco. Para completar a profecia,
o rei Senaqueribe que havia fugido de volta para o seu país, foi assassinado
pelos seus próprios filhos e seu império começou a ruir de vez (37.38).
Conclusão: O
que aprendemos com Ezequias em sua quarentena?
Diante do clima de medo e insegurança que vivemos no
mundo devido a pandemia do COVID-19, a história do rei Ezequias serve de
testemunho para nortear nossas vidas para a superação deste grave problema.
Podemos apontar algumas lições da história bíblica.
1º)
Confiar em Deus. Diante de uma situação praticamente
impossível de vencer, Ezequias percebeu que o único recurso que tinha era
confiar em Deus e tal atitude o possibilitou a experimentar um grande
livramento vindo da parte do Senhor e que serviu de referência para outras
nações (Veja Sl 46.8-10). Ele orou e confiou. Por isso, oremos e confiemos que
o Senhor está cuidando de nossas vidas.
2º)
Palavras de ânimo. Em tempos de crise é natural as pessoas
ficarem com medo e até se desesperarem. O texto bíblico nos ensina a
importância de apregoarmos palavras de ânimo. 1º foi Ezequias que procurou
acalmar o povo, sugerindo confiar no Senhor (Is 36.14) e 2º foi o profeta
Isaías que por duas vezes levou a palavra do Senhor a Ezequias para confortar e
encorajar seu coração. Que sejamos pregadores de palavras de ânimo e coragem.
3º)
Saber a hora de ficar em silêncio. Já dizia o Pregador:
“tempo de ficar calado, tempo de falar...” (Ec 3.7b). Diante da afronta e das
palavras ameaçadoras dos assírios, Ezequias mandou o povo ficar em silêncio (Is
36.21). Neste tempo de profunda crise sanitária que a nossa sociedade enfrenta,
somos bombardeados quase que diariamente com a polarização política. Palavras
de todos os lados surgem com várias notícias falsas e afrontadoras. Não é tempo
de nos dividirmos, de brigar por política. Não aceite as provocações. Cuidado
com o que você fala ou compartilha nas redes sociais. Por isso, em certos
momentos devemos nos silenciar para evitarmos maiores tensões.
4º)
Prudência. Ezequias confiava em Deus, mas isso não o
levou a uma atitude radical de sair da cidade e enfrentar os assírios. Ele
poderia pensar: “Se Deus está do meu lado, então eu vou sair da minha casa e
encarar o inimigo”. Ele não fez isso. Pelo contrário, Ezequias buscou a
orientação de pessoas mais sábias, como o profeta Isaías. Também procurou
alternativas para minimizar os impactos daquela crise ao desviar as águas do
rio para a cidade. Na crise Deus nos dá a oportunidade de buscarmos
alternativas inteligentes para vencer os problemas.
5º)
Planejar a reconstrução. Os assírios destruíram várias
cidades em Judá e trouxe vários prejuízos no entorno da cidade de Jerusalém. A
quarentena imposta por Senaqueribe devastou muitas fontes de alimentação do
povo. Mas o próprio Deus, através do profeta Isaías orientou ao rei a como se
planejar para a reconstrução do reino de Judá após a quarentena (Is 37.30). Por
isso, sabemos que também enfrentaremos uma crise muito grande após a quarentena
causada pelo COVID-19, porém assim como Ezequias devemos ter a esperança e
planejamento para a reconstrução.
Que Deus nos dê a vitória
neste tempo de quarentena!
Referência
Bibliográfica
BÍBLIA
SAGRADA. Tradução Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade
Bíblica do Brasil, 2018.
BORTOLINI, José. Conhecer e rezar os Salmos: comentário
popular para os nossos dias. São Paulo: Paulus, 2006.
MOTYER, J. Alec. O comentário de Isaías. São Paulo:
Shedd Publicações, 2016.
PROVAN, Iain; LONG, V. Pilips e LONGMAN III, Tremper. Uma História Bíblica de Israel.
São Paulo: Vida Nova, 2016.
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