“A humanidade não deu certo” (Flávio Migliaccio).
Essa foi uma
frase tirada da “carta de despedida” do ator Flávio Migliaccio que se
suicidou na segunda-feira, dia 04, segundo informações da imprensa.
Essa frase ficou em minha mente e trouxe a seguinte questão: “será mesmo
que a humanidade não deu certo? E se não deu certo, por quê?”.
Realmente, diante de tanta maldade, injustiça, perversidade, avareza que
encontramos no mundo podemos afirmar, em certo sentido, que a
humanidade não deu certo. Na linguagem do apóstolo Paulo a humanidade
está cheia de “inveja, homicídio, discórdia, engano e malícia. São
difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes,
orgulhosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos,
desleais, sem afeição natural e sem misericórdia” (Rm 1.29-31).
Resumindo, o problema da humanidade se chama PECADO. “Pois TODOS pecaram
e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A humanidade ainda não deu
certo por causa do pecado e tudo começou lá no jardim do Éden e de lá
que também temos esperança.
Em Gênesis 1, temos o relato da
criação de Deus e tudo foi feito em harmonia com o projeto do Criador.
Tudo o que Deus fez foi de uma beleza esplêndida e com um brilhantismo
artístico, não foi à toa que terminada sua obra o Criador reconheceu a
perfeição de todo o trabalho: “Deus viu tudo o que havia feito, e eis
que era MUITO BOM” (Gn 1.31).
O que deu errado, então? O que deu
errado foi que a humanidade, representada por Adão e Eva, escolheu o
caminho errado (Gn 3). Tendo a possibilidade de permanecer na presença
do Criador, de desfrutar de sua proteção e da liberdade responsável
preferiu desobedecer ao mandamento de Deus, sendo influenciado pela
serpente (Satanás), quis ser independente de Deus e jogou tudo a perder.
E perdeu. Perdeu feio! Perdeu a imagem de Deus, a comunhão com o
Criador, a harmonia com as outras criaturas e com a criação como todo.
Não julgue Adão e Eva, pois, talvez, você faria a mesma coisa que eles
fizeram.
Mas, apesar de toda a maldição que todos nós, seres
humanos, ficamos sujeitos por causa do pecado original (Adão e Eva), no
mesmo texto de Gênesis 3, no verso 15 e 21 foi despertada uma ESPERANÇA.
No verso 15, fala de um descendente da mulher que pisará a cabeça da
serpente e no verso 21, fala de um animal inocente que foi sacrificado
por Deus para servir de roupa para cobrir a nudez e vergonha dos
primeiros humanos. Ou seja, no mesmo texto que conta a tragédia humana
podemos perceber um projeto salvífico de Deus para a humanidade. O verso
15 e 21 está apontando para Cristo, que nasceu de uma mulher e foi
morto inocentemente numa cruz, como um cordeiro no matadouro, com o
propósito de perdoar a humanidade caída e redimi-la, possibilitando a
comunhão de volta com o Criador e toda a criação. Como diz João Batista:
“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Paulo
afirma assim: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não
levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra
de reconciliação” (2 Co 5.19).
Mesmo diante de tantas atrocidades
que experimentamos neste mundo, eu diria que a humanidade ainda não deu
certo porque, em sua maioria, muitos estão longe de Deus. Não tem como a
humanidade dar certo sem Cristo. Deus nos fez para que vivêssemos em
comunhão com Ele e sem Ele a vida é inútil. Deus continua acreditando na
sua criação, mesmo em meio a tanto pecado. Como diz Paulo: “onde
abundou o pecado, superabundou a graça de Deus” (Rm 5.20). O que nos dá
esperança como humanidade é a graça de Deus. Não merecemos nada nesta
vida, mas o nosso Deus, de forma graciosa, por intermédio de seu Filho
Jesus Cristo, nos oferece suas bênçãos. Portanto, a solução para nós,
que somos esta humanidade caída, é Jesus Cristo, somente Nele a
humanidade dará certo.
Deus abençoe sua vida!
Pr. Daniel Neves Stephen
Este blog foi criado com o objetivo de compartilhar estudos bíblicos com o público em geral. É sabido que a Bíblia desperta paixões e interesses diversos, contudo o objetivo é refletir de maneira livre e responsável seguindo os padrões doutrinários tradicionais da fé cristã e wesleyana. Desejo que este blog seja uma ferramenta de aprendizagem para as pessoas, especialmente para aquelas que tem sede pelo conhecimento bíblico.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Eu sigo o exemplo de Jesus de Nazaré, e daí?
Texto: Mateus 9.35-38
“Ao
ver as multidões, Jesus se COMPADECEU delas, porque estavam aflitas e exaustas
como ovelhas que não têm pastor” (v.36).
Vivemos numa sociedade cada vez mais doente em suas
relações com o próximo e isso é devido a vários fatores, mas destaco o egoísmo,
a falta de empatia, a insensibilidade com o sofrimento alheio e etc.. Isto tudo
reflete um termo de um filósofo (Z. Bauman) que está popularizado que é a ideia
de sociedade líquida, ou seja, uma sociedade que não consegue manter a forma e
se solidificar, principalmente, nas relações interpessoais.
Diante
disso, é relevante pegar o exemplo de Jesus, pois sempre ensinou sobre a importância
de conviver com as pessoas e de ajudá-las em suas dores. Em Mateus 9.35-38
percebe-se no texto um dos sentimentos mais belos de Jesus, e que uma pessoa
pode demonstrar, que é a compaixão (misericórdia) por seres humanos. Jesus era
movido por este nobre sentimento, especialmente porque as pessoas que se
aproximavam dele era um povo sofrido, que estava debaixo de julgo opressor
maligno (tanto de viés espiritual quanto material).
Esta pequena perícope introduz o momento de instrução e
envio dos discípulos para anunciarem o reino de Deus a todo Israel (Mt 10.1-42),
e eles deveriam dar preferência as “ovelhas perdidas da Casa de Israel” (10.6).
Jesus serve de referência para seus discípulos, pois assim como ele agia com
compaixão pelas pessoas, também seus discípulos, ao serem enviados para a
missão, deveriam ser movidos pelo mesmo sentimento.
Era a compaixão de Jesus pelas pessoas que o levava a
percorrer as cidades e aldeias, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho
do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades” (9.35). O Evangelho de
Mateus testemunha o momento em que Jesus expressou a compaixão pelas pessoas:
“Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas...” (9.36).
O que aprendemos com
Jesus neste texto?
A
1ª lição: Jesus se compadece das pessoas aflitas (das ovelhas sem pastor)
O
que significa compaixão neste texto? A palavra no grego que é traduzida por
compaixão é “splanchna” que indica “à sede das emoções, as ‘entranhas’, ou
àquilo que hoje seria chamado de ‘coração’” (COENEN e BROWN, 2000, p.1294). Daí
essa palavra também ser traduzida por misericórdia (coração na miséria?).
Contudo, “splanchna” é o equivalente ao hebraico “rehem” que tanto é traduzido
por compaixão quanto por útero e tem o objetivo de mostrar um profundo amor. É
um sentimento de uma pessoa bem situada na vida (Deus ou qualquer ser humano)
para outra que se encontra na posição de carência (humanidade).
A palavra hebraica “rehem” era usada principalmente
quando alguém queria explicar o amor de Deus, algo praticamente inexplicável.
Assim Isaías usou este termo: “Por breve momento te deixei, mas com grandes
compaixões torno a acolher-te” (Is 54.7). Esse mesmo termo também é usado para
descrever o amor de uma mãe pelo filho e filha que ela amamenta (Is 49.15). “É
muito significativo constatar que o hebraico bíblico usa a mesma palavra para
designar o órgão feminino, útero, onde se gera a vida com profundo amor”
(SIQUEIRA, 2005, p. 86). A compaixão que Jesus demonstrou em seu ministério
está relacionada a mesma palavra hebraica e esta ação trouxe vida aqueles que
respondiam com fé.
No texto de Mateus, percebemos que Jesus se compadeceu de
uma multidão aflita e exausta. Pessoas que estavam oprimidas, atormentadas,
desamparadas. Jesus compara esta multidão as ovelhas sem pastor. Essas ovelhas
foram abandonadas pelos seus “pastores”. Ovelhas sem pastores estão fadadas a
destruição. A figura do pastor era muito presente em Israel. “Ovelhas não eram
protegidas por cercas e não se defendiam. Em vez disto, eram totalmente dependentes
de pastores para proteção, pastagem, saciar a sede, abrigo e cuidar dos
ferimentos. De fato, ovelhas não sobreviveriam por muito tempo sem um pastor”
(WALTKE, 2015, p.460).
Jesus se compadeceu das pessoas porque elas estavam
destinadas a destruição. Jesus era a única esperança delas. Jesus continua
olhando para nós e se compadecendo de nossas aflições.
A
2ª lição: Jesus ensina seus discípulos a se compadecerem das pessoas
Ao incentivar os seus discípulos a seguir o seu exemplo,
Jesus muda a metáfora das ovelhas perdidas para a colheita. A colheita indica o
fim da era (13.49). Jesus aponta que a safra será grande e muitas pessoas
estarão prontas para serem “colhidas” no reino. As aflições que elas passam era
um indicador de que estariam sensíveis a aceitar o convite para o Reino de
Deus. Para isso acontecer Jesus conta com seus discípulos para que eles,
movidos pelo sentimento de compaixão, possam exercer a missão do Reino. A
principal motivação da missão é a compaixão pelas pessoas.
Talvez a falta de trabalhadores para a colheita seja
porque está faltando a compaixão no coração daqueles que se dizem seguidores de
Jesus. Mateus destaca um alerta de Cristo sobre os últimos dias: “Por se
multiplicar a maldade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12). A maldade
ou o pecado destrói os alicerces da compaixão. O amor que é derramado, pelo
Espírito (Rm 5.5), na vida dos discípulos não pode se esfriar (Ap 2.4-5).
Por
isso, Jesus conclama seus discípulos a orarem a Deus para que não falte os
trabalhadores para esta grande colheita. “Por isso, peçam ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara” (v.38). Que não falte trabalhadores
nesta seara/colheita.
Conclusão:
Portanto, diante de um cenário caótico que percebemos na
sociedade, onde as pessoas cada vez mais estão insensíveis a dor e o sofrimento
do próximo, temos em Jesus um modelo a ser seguido. Precisamos aprender com
nosso Mestre e Senhor a se compadecer das pessoas aflitas porque perderam seus
empregos, perderam entes queridos, e estão preocupadas com o seu futuro e de
sua família. A compaixão deve nos levar ao encontro dessas pessoas, se colocar
em seus lugares, sofrer as suas dores e ser canal de ajuda e esperança. A seara
é grande, a colheita está pronta e devemos nos mover pelo sentimento de
compaixão para que como discípulos de Jesus levemos o amor de Deus para as
pessoas.
Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Tradução
de João Ferreira de Almeida, 3ª ed. (Nova Almeida Atualizada). Barueri:
Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
CARSON, D. A.. O
comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
COENEN, Lothar e BROWN,
Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida
Nova, 2000.
SIQUEIRA, Tércio. Tirando
o pó das palavras. História e teologia de palavras e expressões bíblicas. São
Paulo: Cedro, 2005.
WALTKE, Bruce e HOUSTON, James. Os
Salmos como Adoração Cristã: um comentário histórico. São Paulo: Shedd
Pulicações, 2015.
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