quarta-feira, 6 de maio de 2020

A humanidade não deu certo?

“A humanidade não deu certo” (Flávio Migliaccio).

Essa foi uma frase tirada da “carta de despedida” do ator Flávio Migliaccio que se suicidou na segunda-feira, dia 04, segundo informações da imprensa.

Essa frase ficou em minha mente e trouxe a seguinte questão: “será mesmo que a humanidade não deu certo? E se não deu certo, por quê?”.

Realmente, diante de tanta maldade, injustiça, perversidade, avareza que encontramos no mundo podemos afirmar, em certo sentido, que a humanidade não deu certo. Na linguagem do apóstolo Paulo a humanidade está cheia de “inveja, homicídio, discórdia, engano e malícia. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, orgulhosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, desleais, sem afeição natural e sem misericórdia” (Rm 1.29-31). Resumindo, o problema da humanidade se chama PECADO. “Pois TODOS pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A humanidade ainda não deu certo por causa do pecado e tudo começou lá no jardim do Éden e de lá que também temos esperança.

Em Gênesis 1, temos o relato da criação de Deus e tudo foi feito em harmonia com o projeto do Criador. Tudo o que Deus fez foi de uma beleza esplêndida e com um brilhantismo artístico, não foi à toa que terminada sua obra o Criador reconheceu a perfeição de todo o trabalho: “Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era MUITO BOM” (Gn 1.31).

O que deu errado, então? O que deu errado foi que a humanidade, representada por Adão e Eva, escolheu o caminho errado (Gn 3). Tendo a possibilidade de permanecer na presença do Criador, de desfrutar de sua proteção e da liberdade responsável preferiu desobedecer ao mandamento de Deus, sendo influenciado pela serpente (Satanás), quis ser independente de Deus e jogou tudo a perder. E perdeu. Perdeu feio! Perdeu a imagem de Deus, a comunhão com o Criador, a harmonia com as outras criaturas e com a criação como todo. Não julgue Adão e Eva, pois, talvez, você faria a mesma coisa que eles fizeram.

Mas, apesar de toda a maldição que todos nós, seres humanos, ficamos sujeitos por causa do pecado original (Adão e Eva), no mesmo texto de Gênesis 3, no verso 15 e 21 foi despertada uma ESPERANÇA. No verso 15, fala de um descendente da mulher que pisará a cabeça da serpente e no verso 21, fala de um animal inocente que foi sacrificado por Deus para servir de roupa para cobrir a nudez e vergonha dos primeiros humanos. Ou seja, no mesmo texto que conta a tragédia humana podemos perceber um projeto salvífico de Deus para a humanidade. O verso 15 e 21 está apontando para Cristo, que nasceu de uma mulher e foi morto inocentemente numa cruz, como um cordeiro no matadouro, com o propósito de perdoar a humanidade caída e redimi-la, possibilitando a comunhão de volta com o Criador e toda a criação. Como diz João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Paulo afirma assim: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra de reconciliação” (2 Co 5.19).

Mesmo diante de tantas atrocidades que experimentamos neste mundo, eu diria que a humanidade ainda não deu certo porque, em sua maioria, muitos estão longe de Deus. Não tem como a humanidade dar certo sem Cristo. Deus nos fez para que vivêssemos em comunhão com Ele e sem Ele a vida é inútil. Deus continua acreditando na sua criação, mesmo em meio a tanto pecado. Como diz Paulo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus” (Rm 5.20). O que nos dá esperança como humanidade é a graça de Deus. Não merecemos nada nesta vida, mas o nosso Deus, de forma graciosa, por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, nos oferece suas bênçãos. Portanto, a solução para nós, que somos esta humanidade caída, é Jesus Cristo, somente Nele a humanidade dará certo.

Deus abençoe sua vida!

Pr. Daniel Neves Stephen

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Eu sigo o exemplo de Jesus de Nazaré, e daí?


Texto: Mateus 9.35-38

“Ao ver as multidões, Jesus se COMPADECEU delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (v.36).

            Vivemos numa sociedade cada vez mais doente em suas relações com o próximo e isso é devido a vários fatores, mas destaco o egoísmo, a falta de empatia, a insensibilidade com o sofrimento alheio e etc.. Isto tudo reflete um termo de um filósofo (Z. Bauman) que está popularizado que é a ideia de sociedade líquida, ou seja, uma sociedade que não consegue manter a forma e se solidificar, principalmente, nas relações interpessoais.
Diante disso, é relevante pegar o exemplo de Jesus, pois sempre ensinou sobre a importância de conviver com as pessoas e de ajudá-las em suas dores. Em Mateus 9.35-38 percebe-se no texto um dos sentimentos mais belos de Jesus, e que uma pessoa pode demonstrar, que é a compaixão (misericórdia) por seres humanos. Jesus era movido por este nobre sentimento, especialmente porque as pessoas que se aproximavam dele era um povo sofrido, que estava debaixo de julgo opressor maligno (tanto de viés espiritual quanto material).
            Esta pequena perícope introduz o momento de instrução e envio dos discípulos para anunciarem o reino de Deus a todo Israel (Mt 10.1-42), e eles deveriam dar preferência as “ovelhas perdidas da Casa de Israel” (10.6). Jesus serve de referência para seus discípulos, pois assim como ele agia com compaixão pelas pessoas, também seus discípulos, ao serem enviados para a missão, deveriam ser movidos pelo mesmo sentimento.
            Era a compaixão de Jesus pelas pessoas que o levava a percorrer as cidades e aldeias, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades” (9.35). O Evangelho de Mateus testemunha o momento em que Jesus expressou a compaixão pelas pessoas: “Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas...” (9.36).
O que aprendemos com Jesus neste texto?

A 1ª lição: Jesus se compadece das pessoas aflitas (das ovelhas sem pastor)
O que significa compaixão neste texto? A palavra no grego que é traduzida por compaixão é “splanchna” que indica “à sede das emoções, as ‘entranhas’, ou àquilo que hoje seria chamado de ‘coração’” (COENEN e BROWN, 2000, p.1294). Daí essa palavra também ser traduzida por misericórdia (coração na miséria?). Contudo, “splanchna” é o equivalente ao hebraico “rehem” que tanto é traduzido por compaixão quanto por útero e tem o objetivo de mostrar um profundo amor. É um sentimento de uma pessoa bem situada na vida (Deus ou qualquer ser humano) para outra que se encontra na posição de carência (humanidade).
            A palavra hebraica “rehem” era usada principalmente quando alguém queria explicar o amor de Deus, algo praticamente inexplicável. Assim Isaías usou este termo: “Por breve momento te deixei, mas com grandes compaixões torno a acolher-te” (Is 54.7). Esse mesmo termo também é usado para descrever o amor de uma mãe pelo filho e filha que ela amamenta (Is 49.15). “É muito significativo constatar que o hebraico bíblico usa a mesma palavra para designar o órgão feminino, útero, onde se gera a vida com profundo amor” (SIQUEIRA, 2005, p. 86). A compaixão que Jesus demonstrou em seu ministério está relacionada a mesma palavra hebraica e esta ação trouxe vida aqueles que respondiam com fé.
            No texto de Mateus, percebemos que Jesus se compadeceu de uma multidão aflita e exausta. Pessoas que estavam oprimidas, atormentadas, desamparadas. Jesus compara esta multidão as ovelhas sem pastor. Essas ovelhas foram abandonadas pelos seus “pastores”. Ovelhas sem pastores estão fadadas a destruição. A figura do pastor era muito presente em Israel. “Ovelhas não eram protegidas por cercas e não se defendiam. Em vez disto, eram totalmente dependentes de pastores para proteção, pastagem, saciar a sede, abrigo e cuidar dos ferimentos. De fato, ovelhas não sobreviveriam por muito tempo sem um pastor” (WALTKE, 2015, p.460).
            Jesus se compadeceu das pessoas porque elas estavam destinadas a destruição. Jesus era a única esperança delas. Jesus continua olhando para nós e se compadecendo de nossas aflições.

A 2ª lição: Jesus ensina seus discípulos a se compadecerem das pessoas
            Ao incentivar os seus discípulos a seguir o seu exemplo, Jesus muda a metáfora das ovelhas perdidas para a colheita. A colheita indica o fim da era (13.49). Jesus aponta que a safra será grande e muitas pessoas estarão prontas para serem “colhidas” no reino. As aflições que elas passam era um indicador de que estariam sensíveis a aceitar o convite para o Reino de Deus. Para isso acontecer Jesus conta com seus discípulos para que eles, movidos pelo sentimento de compaixão, possam exercer a missão do Reino. A principal motivação da missão é a compaixão pelas pessoas.
            Talvez a falta de trabalhadores para a colheita seja porque está faltando a compaixão no coração daqueles que se dizem seguidores de Jesus. Mateus destaca um alerta de Cristo sobre os últimos dias: “Por se multiplicar a maldade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12). A maldade ou o pecado destrói os alicerces da compaixão. O amor que é derramado, pelo Espírito (Rm 5.5), na vida dos discípulos não pode se esfriar (Ap 2.4-5).
Por isso, Jesus conclama seus discípulos a orarem a Deus para que não falte os trabalhadores para esta grande colheita. “Por isso, peçam ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (v.38). Que não falte trabalhadores nesta seara/colheita.

Conclusão:
            Portanto, diante de um cenário caótico que percebemos na sociedade, onde as pessoas cada vez mais estão insensíveis a dor e o sofrimento do próximo, temos em Jesus um modelo a ser seguido. Precisamos aprender com nosso Mestre e Senhor a se compadecer das pessoas aflitas porque perderam seus empregos, perderam entes queridos, e estão preocupadas com o seu futuro e de sua família. A compaixão deve nos levar ao encontro dessas pessoas, se colocar em seus lugares, sofrer as suas dores e ser canal de ajuda e esperança. A seara é grande, a colheita está pronta e devemos nos mover pelo sentimento de compaixão para que como discípulos de Jesus levemos o amor de Deus para as pessoas.


Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida, 3ª ed. (Nova Almeida Atualizada). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
CARSON, D. A.. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000.
SIQUEIRA, Tércio. Tirando o pó das palavras. História e teologia de palavras e expressões bíblicas. São Paulo: Cedro, 2005.
WALTKE, Bruce e HOUSTON, James. Os Salmos como Adoração Cristã: um comentário histórico. São Paulo: Shedd Pulicações, 2015.