sexta-feira, 1 de maio de 2020

Eu sigo o exemplo de Jesus de Nazaré, e daí?


Texto: Mateus 9.35-38

“Ao ver as multidões, Jesus se COMPADECEU delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (v.36).

            Vivemos numa sociedade cada vez mais doente em suas relações com o próximo e isso é devido a vários fatores, mas destaco o egoísmo, a falta de empatia, a insensibilidade com o sofrimento alheio e etc.. Isto tudo reflete um termo de um filósofo (Z. Bauman) que está popularizado que é a ideia de sociedade líquida, ou seja, uma sociedade que não consegue manter a forma e se solidificar, principalmente, nas relações interpessoais.
Diante disso, é relevante pegar o exemplo de Jesus, pois sempre ensinou sobre a importância de conviver com as pessoas e de ajudá-las em suas dores. Em Mateus 9.35-38 percebe-se no texto um dos sentimentos mais belos de Jesus, e que uma pessoa pode demonstrar, que é a compaixão (misericórdia) por seres humanos. Jesus era movido por este nobre sentimento, especialmente porque as pessoas que se aproximavam dele era um povo sofrido, que estava debaixo de julgo opressor maligno (tanto de viés espiritual quanto material).
            Esta pequena perícope introduz o momento de instrução e envio dos discípulos para anunciarem o reino de Deus a todo Israel (Mt 10.1-42), e eles deveriam dar preferência as “ovelhas perdidas da Casa de Israel” (10.6). Jesus serve de referência para seus discípulos, pois assim como ele agia com compaixão pelas pessoas, também seus discípulos, ao serem enviados para a missão, deveriam ser movidos pelo mesmo sentimento.
            Era a compaixão de Jesus pelas pessoas que o levava a percorrer as cidades e aldeias, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades” (9.35). O Evangelho de Mateus testemunha o momento em que Jesus expressou a compaixão pelas pessoas: “Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas...” (9.36).
O que aprendemos com Jesus neste texto?

A 1ª lição: Jesus se compadece das pessoas aflitas (das ovelhas sem pastor)
O que significa compaixão neste texto? A palavra no grego que é traduzida por compaixão é “splanchna” que indica “à sede das emoções, as ‘entranhas’, ou àquilo que hoje seria chamado de ‘coração’” (COENEN e BROWN, 2000, p.1294). Daí essa palavra também ser traduzida por misericórdia (coração na miséria?). Contudo, “splanchna” é o equivalente ao hebraico “rehem” que tanto é traduzido por compaixão quanto por útero e tem o objetivo de mostrar um profundo amor. É um sentimento de uma pessoa bem situada na vida (Deus ou qualquer ser humano) para outra que se encontra na posição de carência (humanidade).
            A palavra hebraica “rehem” era usada principalmente quando alguém queria explicar o amor de Deus, algo praticamente inexplicável. Assim Isaías usou este termo: “Por breve momento te deixei, mas com grandes compaixões torno a acolher-te” (Is 54.7). Esse mesmo termo também é usado para descrever o amor de uma mãe pelo filho e filha que ela amamenta (Is 49.15). “É muito significativo constatar que o hebraico bíblico usa a mesma palavra para designar o órgão feminino, útero, onde se gera a vida com profundo amor” (SIQUEIRA, 2005, p. 86). A compaixão que Jesus demonstrou em seu ministério está relacionada a mesma palavra hebraica e esta ação trouxe vida aqueles que respondiam com fé.
            No texto de Mateus, percebemos que Jesus se compadeceu de uma multidão aflita e exausta. Pessoas que estavam oprimidas, atormentadas, desamparadas. Jesus compara esta multidão as ovelhas sem pastor. Essas ovelhas foram abandonadas pelos seus “pastores”. Ovelhas sem pastores estão fadadas a destruição. A figura do pastor era muito presente em Israel. “Ovelhas não eram protegidas por cercas e não se defendiam. Em vez disto, eram totalmente dependentes de pastores para proteção, pastagem, saciar a sede, abrigo e cuidar dos ferimentos. De fato, ovelhas não sobreviveriam por muito tempo sem um pastor” (WALTKE, 2015, p.460).
            Jesus se compadeceu das pessoas porque elas estavam destinadas a destruição. Jesus era a única esperança delas. Jesus continua olhando para nós e se compadecendo de nossas aflições.

A 2ª lição: Jesus ensina seus discípulos a se compadecerem das pessoas
            Ao incentivar os seus discípulos a seguir o seu exemplo, Jesus muda a metáfora das ovelhas perdidas para a colheita. A colheita indica o fim da era (13.49). Jesus aponta que a safra será grande e muitas pessoas estarão prontas para serem “colhidas” no reino. As aflições que elas passam era um indicador de que estariam sensíveis a aceitar o convite para o Reino de Deus. Para isso acontecer Jesus conta com seus discípulos para que eles, movidos pelo sentimento de compaixão, possam exercer a missão do Reino. A principal motivação da missão é a compaixão pelas pessoas.
            Talvez a falta de trabalhadores para a colheita seja porque está faltando a compaixão no coração daqueles que se dizem seguidores de Jesus. Mateus destaca um alerta de Cristo sobre os últimos dias: “Por se multiplicar a maldade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12). A maldade ou o pecado destrói os alicerces da compaixão. O amor que é derramado, pelo Espírito (Rm 5.5), na vida dos discípulos não pode se esfriar (Ap 2.4-5).
Por isso, Jesus conclama seus discípulos a orarem a Deus para que não falte os trabalhadores para esta grande colheita. “Por isso, peçam ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (v.38). Que não falte trabalhadores nesta seara/colheita.

Conclusão:
            Portanto, diante de um cenário caótico que percebemos na sociedade, onde as pessoas cada vez mais estão insensíveis a dor e o sofrimento do próximo, temos em Jesus um modelo a ser seguido. Precisamos aprender com nosso Mestre e Senhor a se compadecer das pessoas aflitas porque perderam seus empregos, perderam entes queridos, e estão preocupadas com o seu futuro e de sua família. A compaixão deve nos levar ao encontro dessas pessoas, se colocar em seus lugares, sofrer as suas dores e ser canal de ajuda e esperança. A seara é grande, a colheita está pronta e devemos nos mover pelo sentimento de compaixão para que como discípulos de Jesus levemos o amor de Deus para as pessoas.


Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida, 3ª ed. (Nova Almeida Atualizada). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
CARSON, D. A.. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000.
SIQUEIRA, Tércio. Tirando o pó das palavras. História e teologia de palavras e expressões bíblicas. São Paulo: Cedro, 2005.
WALTKE, Bruce e HOUSTON, James. Os Salmos como Adoração Cristã: um comentário histórico. São Paulo: Shedd Pulicações, 2015.

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